Somos sementes

Tem dor que dói. Dói mais que a dor dos outros. Dói mais do que tudo. A dor da mágoa é assim, a dor da separação também, a dor da decepção, a dor da rejeição, todas elas doem porque são dores das perdas. A perda de um amor, a perda de uma condição social, de um amigo, a perda de uma ilusão. As perdas doem porque rompem algo dentro de nós, como se rasgasse mesmo, rompem os apegos. Somos demasiado apegados ao objeto do nosso amor e admiração, qual seja um parceiro amoroso na figura de esposa, esposo, namorado, namorada ou apenas um amor platônico. Julgamos ter a posse desse amor, e quando percebemos que não os temos em nossas mãos, seja pelo motivo que for, sentimos dor. Acostumados que estávamos com aquela presença, a falta dela provoca dor. Tem vez que o objeto da perda é uma ideia, assim vaga mesmo, como a ideia de que estamos sempre certos, mas vem alguém e cospe em nós os nossos equívocos, nossas imperfeições, e isso dói; dói porque rasga por dentro nossa segurança, a auto-confiança se dilacera, somos empurrados a ver quem somos realmente, é a perda da certeza. Quando o objeto da perda é a confiança no outro, então, parece que dói mais; é um laço por demais apertado para se desfazer porque a confiança traz conforto e se ela se desfaz, desfaz-se o conforto, e isso dói demais. Tudo porque nos apegamos…temos como propriedade imutável o conforto, a confiança, o relacionamento amoroso, o carinho e afeto das pessoas e tantas outras coisas. Posto isso, dá para entender que o antídoto para essa dor, que dói tão profundamente e prostra o indivíduo que sente sangrar a alma, é exercitar o desapego. Significa entender que que nada possuímos a não ser a capacidade de desenvolver a compreensão. Perceber que tudo é efêmero, a vida passa, os sentimentos mudam, as pessoas escolhem caminhos (sim, e são responsáveis por eles), os dias não são todos iguais; o corpo nos mostra isso todos os dias diante do espelho, as estações do ano são a prova concreta de que nada permanecerá como é. No entanto a dor é humana. Não vamos passar pela vida sem ela, pois nossa estrutura mental está aprendendo a lidar com os acontecimentos, oras, somos seres em evolução, que desejamos ser felizes, ainda que batendo a cabeça para atingirmos esse objetivo. Se até as plantas doem, por que nós não haveríamos de doer? Notem a semente que precisa romper a terra, que esforço hercúleo aquele corpo tão frágil faz antes de ser tocado pelo ar e enfim desabrochar. Não seremos nós humanos que vamos desabrochar sem esforço, sem as dores que nos movem para fora da terra. São as dores que nos fazem ganhar a vida se forem bem sentidas, isto é, se forem compreendidas e superadas, qual a semente de uma flor. Depois que o broto desponta na superfície do solo, ela se desapega da sua casca e segue seu destino de crescer e desabrochar. Que belo convite nos faz a natureza! Sentir a dor do crescimento moral, intelectual, espiritual, para depois despojar-se do sofrimento e seguir o caminho em busca da tão desejada felicidade. Dá para ver que é bem possível transformar dores e perdas em alegrias e ganhos!

Danielle Arantes Giannini

Teve dores na alma
Para as quais não encontrava comprimidos
Deixou o corpo deitado
As dores não cessavam
Quanto mais esperava
Mais doía-lhe o ser
Por quanto tempo ficou ali não sabe
Era confortável a companhia da dor.

(Palavras sobre palavras – http://wordpress.sobrepalavras.com)

 

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